A vida me sabota, eu sei.
Mas havia dias que eu sentia nela um quê de sumiço. Um quê de serenidade e lividez do desaparecimento. Ela estava ali, mas ela não estava aqui, comigo. Havia um rastro dela, físico, indivisível, mas dos seus olhos brotavam furta cores, milhões de tons, camaleões de matizes que indicavam o quanto ela estava partida, segmentada, perdida, distante.
Nem por isso deixei de desejá-la. Au contraire, passei a desejar e querê-la muito mais, como quem está prestes a deixar que a mão escorregue das suas mãos e o corpo desabe pelo precipício. A mão que segurava o corpo era minha. O precipício era eu. O grito era meu. A dor era ela.
E eu, na minha intolerância de só falar de mim, ia esquecendo o torpor dela. O silêncio dela me ofendia, enquanto as palavras caíam, indispostas, por algum dos lados da boca, sem força pra emitir som. Um troço incômodo, vago, mas que não dava motivo oficial para uma argumentação.
- O que você t…
- Nada.
Fim.
Nem por isso deixei de comê-la. Com força, com ódio, com violência, com amor. Não deixei de pegar nos seus braços, apertar sua bunda, lamber seus gostos todos. Não deixei de engoli-la por inteiro. Mas sentia, por todo o corpo, que alguma coisa havia saído do lugar.
Eu estava só.
Com ela ao meu lado. O que era um alento, um resto, fresta de sentimento.
Logo eu, cuja vida depende da sua boa vontade, estava só.
Tem a hora em que não entra mais ar, não entra mais porra, não entra mais pau e não entra mais vida. E tem a vida que sobrou dentro, e não pode sair porque senão acaba. Não quero que acabe.
E tudo seco e quente, e a boca para de dizer o que eu penso e o abismo cresce. E nem o sexo resolve, porque tem o que vem antes e o que vem depois, e eu não sei onde colocar os pontos, e as vírgulas.
Não quero que o hiato siga, não quero que a boca seque. Mas o ar que eu inspiro pelo nariz não me basta. Então eu cerro os lábios, e inspiro com força e cuidado pra não fazer barulho.
Someday, my happy arms will hold you
And someday, I´ll know that moment divine
When all the things you are,
Are mine.
And someday, I´ll know that moment divine
When all the things you are,
Are mine.
Me come sem fazer barulho, sem beijo e sem falar nada. Não tenho nada pra dizer, não tenho como explicar. Queria chorar. Nem chorar, queria respirar fundo ou transpirar. Gozar indifere, quero que você seja o que entra e sai de mim.


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